Temos frequentado a literatura do argentino Jorge Luis Borges nesta última semana: eu trouxe, no sábado passado, o poema “tu” (assim, com minúscula), publicado em “O Ouro dos Tigres” (1972), acompanhado do forte e de todo oportuno comentário de Michelle Peixoto. Lembra, caro leitor/a? Hoje, como prometido, trago o poema “um leitor” (também com minúscula), do livro “Elogio da Sombra” (1969).
“um leitor
Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;
eu me orgulho das que li.
Não fui um filólogo,
não pesquisei as declinações, os modos, a laboriosa mutação das letras,
o ‘de’ que se endurece em ‘te’,
a equivalência do ‘ge’ e do ‘ka’,
mas ao longo de meus anos professei
a paixão da linguagem.
Minhas noites estão repletas de Virgílio;
ter conhecido e esquecido o latim
é uma posse, porque o esquecimento
é uma das formas da memória, seu porão difuso,
a outra face secreta da moeda.
Quando em meus olhos se apagaram
as vãs aparências estimadas,
os rostos e a página,
dediquei-me ao estudo da linguagem de ferro
empregada por meus antepassados para cantar
espadas e solidões,
e agora, através de sete séculos,
desde a Última Tule,
tua voz me alcança, Snorri Sturluson.
O jovem, diante do livro, impõe-se uma disciplina precisa
e o faz em busca de um conhecimento preciso;
em minha idade, toda empresa é uma aventura
que limita com a noite.
Não acabarei de decifrar as antigas línguas do Norte,
não afundarei as mãos ansiosas no ouro de Sigurd;
a tarefa que empreendo é ilimitada
e há de acompanhar-me até o fim,
não menos misteriosa do que o universo
e do que eu, o aprendiz.”
Hoje não haverá contraponto ao poema – só o teu. Leia uma, duas, três vezes, quantas vezes for necessário, caro leitor/a: até que o poema esteja impregnado no coração, na mente, no olho que percebe a luz desta primavera com jeito de outono que se está vivendo no sul do Brasil. Pode ser que tu te percebas assoviando a melodia da canção de Beto Guedes: “Sol de primavera/ Abre as janelas do meu peito/ A lição sabemos de cor/ Só nos resta aprender". E será contraponto suficiente.