Estávamos, a tribo inteira, num Café, dia desses, discutindo a difícil arte de escolher. À mesa, o Conselheiro, Mínglî, Awen, Quíron e Iroko, orixá do tempo. Ah! E eu mesmo: eu tinha chegado um pouco antes. O garçom, entre desconfiado e curioso - apesar de conhecer a todos e todas -, trouxe o cardápio. “Escolher é exercer a liberdade”, começou o Conselheiro. “Mas ninguém escolhe fora de suas circunstâncias. Há quem decida onde investir e quem precise decidir entre o arroz e o remédio.” Sim, pensei: escolhemos a partir de uma história, de experiências, de afetos, de interesses, de informações e de possibilidades concretas. O ponto filosófico do velho Conselheiro era o de que a liberdade formal de escolher não significa necessariamente igualdade nas condições de escolha.
“Nem todas as encruzilhadas oferecem caminhos igualmente possíveis”, acrescentou Awen, a Bruxa, mexendo cuidadosamente seu chá. “E cuidado com o medo!” Eu sorri discretamente: havia intuído que ela ligaria o medo e as encruzilhadas ao tema da escolha, e que provavelmente contestaria qualquer tentativa de transformar a escolha num exercício puramente racional. Escolhemos também com nossos medos, desejos, ressentimentos, esperanças e fantasias. O medo pode funcionar como advertência legítima diante de perigos reais. Mas também pode ser fabricado, ampliado e manipulado.
“Escolher, entretanto, não significa controlar o destino”, ponderou Mínglî, que havia pedido um suco de açaí com laranja. “A água encontra seu caminho sem precisar vencer todas as pedras. Agir não é necessariamente forçar.” Mínglî, a estudante chinesa, professora de Chi Kung e de Tai Chi, introduzia uma perspectiva diferente. Escolher um caminho não significa possuir o caminho. A escolha - entre outras, a democrática - exige convicção, mas também capacidade de continuar vivendo num mundo que não corresponde inteiramente às nossas preferências. Escolher sem apego não significa escolher sem responsabilidade, era a contribuição de Mínglî.
“Mas toda escolha implica alguma renúncia”, observou Quíron. “Os caminhos abandonados continuam habitando nossa memória – as mitologias do mundo estão cheias de histórias assim. E mesmo as boas escolhas podem deixar feridas, isso talvez seja inevitável.” Olhei para o velho mestre. Quíron conhece a ferida que não desaparece e estava trazendo a dimensão trágica da escolha. Podemos escolher corretamente e ainda experimentar perdas. Podemos agir com responsabilidade e ainda produzir consequências indesejadas. Sua reflexão trazia também uma exigência ética: nas escolhas, não há garantias absolutas, mas há critérios, experiências, princípios e consequências que podemos examinar.
Lembrei que no domingo teríamos eleições. “Não escolher também produz consequências”, advertiu o Conselheiro. “E convicções não precisam transformar-se em certezas absolutas”, acrescentou Quíron. “Algumas certezas são apenas dúvidas que aprenderam a gritar.” Iroko, que até então contemplava uma árvore pela janela, finalmente se manifestou: “Vocês falam da escolha como um instante. Mas toda escolha é uma transição entre o que herdamos e aquilo que deixaremos. Não confundam a travessia com a chegada.” “Inclusive quando escolhemos mal?”, perguntei. Iroko permaneceu em silêncio, deixando a pergunta se dissolver no espaço, no tempo, no espaço-tempo.
Enquanto nos preparávamos para sair, Mínglî, que durante a conversa lançara discretamente as moedas do I Ching, contemplou o hexagrama formado e levantou uma sobrancelha. “E então? O que saiu?”, indaguei. Ela me estendeu o guardanapo em que havia desenhado o hexagrama. No domingo, escolheremos. Na segunda-feira, continuaremos compartilhando o mesmo mundo. Quanto ao hexagrama... Quem sabe, caro leitor/a, não seja uma boa ocasião para consultar o I Ching e descobrir que perguntas suas próprias escolhas estão lhe fazendo?