Chegou mais um ano de Copa do Mundo! Em 2026, será realizada a 23ª edição do torneio de seleções.
Conforme havia prometido, irei fazer neste espaço uma série dedicada a contar a história de todos os Mundiais. Ao longo dos 22 textos, a proposta é revisitar contextos, bastidores, personagens e curiosidades que ajudaram a transformar a Copa no maior evento esportivo do planeta, começando pelo seu nascimento, em 1930.
A criação da FIFA ocorreu em 1904, em Paris, com o objetivo de organizar e padronizar o futebol internacional, que crescia rapidamente em popularidade. Desde sempre, a entidade carregava o sonho de realizar um torneio próprio, independente dos Jogos Olímpicos, reunindo seleções nacionais em uma competição exclusivamente dedicada ao futebol. Esse projeto ganhou força quando o francês Jules Rimet assumiu a presidência da entidade em 1921, tornando-se o grande idealizador da Copa do Mundo.
Antes que a ideia saísse do papel, a FIFA organizou o torneio de futebol dentro das Olimpíadas de 1924 e 1928, ambos vencidos pelo Uruguai. As conquistas deram enorme prestígio à seleção uruguaia e serviram como prova de que um campeonato mundial de futebol, fora do ambiente olímpico, era viável e atraente, provando que havia bom futebol fora da Europa. Em 1928, durante o congresso da FIFA em Amsterdã, a decisão foi tomada: a Copa do Mundo seria criada, e o Uruguai foi escolhido como sede da primeira edição, marcada para 1930. Pesaram a excelente fase da seleção, bicampeã olímpica, e o fato de o país celebrar o centenário de sua independência naquele ano.
A escolha do Uruguai, porém, não agradou às seleções europeias. A longa viagem de navio, os custos elevados e o afastamento geográfico fizeram com que muitos países recusassem o convite, já que ainda não existiam as Eliminatórias. Inicialmente, apenas a Iugoslávia aceitou participar. Coube a Jules Rimet e a outros dirigentes da entidade um trabalho diplomático para convencer França, Bélgica e Romênia a se juntarem ao torneio. Assim, a primeira Copa do Mundo contou majoritariamente com seleções da América do Sul e da América do Norte, além dos quatro europeus: Uruguai, Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Paraguai, Estados Unidos e México.
O Brasil vivia um cenário conturbado. O futebol ainda era amador, e a CBD (entidade anterior à CBF) sofria com a rivalidade entre as federações do Rio de Janeiro e de São Paulo. As convocações exigiam igualdade no número de jogadores de cada estado, o que acabou gerando conflitos e disputas internas, pois um lado achava ter mais talento que o outro. Naquele momento, o Rio de Janeiro tinha uma geração melhor, mas São Paulo se recusou a ter menos convocados para a Copa e boicotou a seleção. Apenas cariocas integraram a delegação brasileira que viajou ao Uruguai.
A campanha do Brasil foi modesta. A seleção perdeu na estreia para a Iugoslávia por 2 a 1 e venceu a Bolívia por 4 a 0 na segunda partida, mas acabou eliminada ainda na fase inicial, atrás dos iugoslavos. O destaque foi o atacante Preguinho, autor do primeiro gol da história do Brasil em Copas do Mundo.
Já o Uruguai fez jus ao favoritismo. Jogando em casa, no recém-inaugurado Estádio Centenário, a Celeste superou Romênia e Peru na primeira fase, a Iugoslávia na semifinal e chegou à final contra a Argentina, sua grande rival continental. Diante de mais de 90 mil torcedores, os uruguaios venceram por 4 a 2 e se tornaram os primeiros campeões mundiais da história.
Assim nascia a Copa do Mundo, um torneio que começava tímido, mas que estava destinado a se tornar eterno.