Aproximamo-nos do fim do ano e sinais de cansaço vêm de todos os lados: nas escolas e universidades, os ambientes que mais frequento, isso é bem claro. Em outros espaços, não será diferente. Clama-se por um “tempo”; o corre foi brabo. Os tempos andam loucos; a violência come solta. O tempo-clima, além de febril, encontra-se extremado, vulcânico, tsunâmico. Aqui no Sul, saiu de seus leitos e encharcou cidades e futuros no ano passado. Em Erechim, ainda ontem (em um ano frio), trouxe pedras de gelo concentradas em minutos de caos, estruturas prediais e economias danificadas, e perplexidade. Trouxe até um substantivo: “enlonamento”. E um verbo: “enlonar”.
Nunca, mesmo em circunstâncias mais favoráveis, foi fácil, isso é certo. Ainda assim, o escritor e filósofo sino-americano Deng Ming-Dao traz-nos um texto equilibrado, ponderado, e que pode representar um respiro, uma brisa de leque bem aberto, um oásis existencial na travessia deste dezembro que já vai adiantado. Um recado ancestral. “Desesperar, jamais.” Traduzo o ensaio, intitulado “Descanso” e encabeçado por um pequeno poema, e o partilho com o caro leitor/a:
“O fim do ano está chegando;
Sinto grande contentamento.
Conclusão significa descanso.
Descanso significa renovação.
Renovação significa novos começos.
A perseverança é uma grande virtude, mas a perseverança não pode ser cultivada indefinidamente. Perseverança não significa um engajamento sem fim em tarefas de Sísifo. Significa começo, meio e fim e, depois, começo. Estamos nos aproximando do fim do ano, mas não poderíamos contemplar esse término sem termos concluído todos os dias e meses que vieram antes.
É bom contemplar o final das coisas. Não apenas nos oferece perspectiva, mas também a base para o nosso próximo empreendimento. Quando as coisas terminam, isso significa a conquista de nossos objetivos. Devemos começar tudo com um objetivo definido em mente; do contrário, nossa vida vai carecer de propósito. Assim que atingimos nossos objetivos, devemos nos alegrar e descansar. Precisamos de tempo para que nossa psique absorva o significado de nossos atos. Com o descanso vem a renovação e, com a renovação, podemos construir a força de nosso caráter e, com isso, ficar mais fortes para o futuro.
No campo, os fazendeiros muitas vezes cochilam em suas carroças de feno enquanto as mulas os levam automaticamente de volta para casa. Eles sabem como avançar e descansar ao mesmo tempo!”
Sei lá, me pareceu adequado. É preciso que cheguemos mais e melhor centrados à passagem de ano. De mente mais ou menos quieta, espinha mais ou menos ereta e coração mais ou menos tranquilo.