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Expressão Plural

A raposa e o urso

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Everton Ruchel
Por Everton Ruchel
Foto Arquivo pessoal

Na arquitetura da floresta, existem duas formas de habitar o tempo. Uma delas é a da raposa, uma criatura que transformou o desvio em sua única direção. Para ela, a clareira nunca é um espaço aberto, mas um tabuleiro de ângulos e sombras. A raposa não caminha, ela sente as vulnerabilidades do terreno. Seus passos são calculados para não deixar marcas profundas, pois acredita que a maior das inteligências reside na capacidade de nunca ser totalmente lida. Ela olha para os outros com um brilho de desdém. Vê na honestidade uma fraqueza e na firmeza alheia uma falta de refinamento. Para ela, o mundo é um banquete servido apenas para quem sabe enganar a luz.

Ela se move com uma agitação que se confunde com vivacidade. Cada gesto é acompanhado por uma sensação interna de vitória. Sente-se senhora de segredos que ninguém mais acessa. Quando cruza com um animal maior, exibe uma reverência forjada, apenas para, logo depois, rir da facilidade com que acredita ter manipulado a percepção alheia. A raposa vive num estado de alerta do impostor, temendo que o cenário desabe sobre sua cabeça. Sua esperteza é uma construção de palha, funciona enquanto o vento sopra a favor, mas exige um esforço enorme para se manter.

Do outro lado, o urso habita o centro de si mesmo. Ele não precisa de atalhos porque ele é o próprio caminho. Quando se move, a floresta se organiza ao seu redor. Não há nele o desejo de parecer mais rápido ou mais místico do que realmente é. Sua seriedade é uma extensão da terra, ele é feito de rocha e tempo. O urso não gasta energia com simulações. Se ele está presente, sua presença é absoluta. Ele não busca validação, nem tenta convencer o rio de que é mais astuto que a água. Ele simplesmente atravessa.

A raposa, observando-o, comete o erro de julgar o urso pela sua economia de gestos. Ela vê o urso ignorar uma provocação e conclui que ele é lerdo. "Pobre gigante", pensa ela, "tão fácil de enganar". Ela testa os limites da paciência dele com pequenas artimanhas, convencida de que sua agilidade a torna intocável.

O que a raposa nunca compreenderá é que o urso não é indiferente por falta de percepção, mas por excesso de clareza. O urso sente o cheiro da enrolação a quilômetros. Ele ouve o ritmo cardíaco acelerado de quem está sempre prestes a fugir. Ele enxerga a trama, mas não se presta a interrompê-la. Sabe que a verdadeira autoridade não precisa desmascarar o ridículo, pois o ridículo, com o tempo, desmascara a si mesmo.

Enquanto a raposa se cansa, amarrada na complexidade de suas próprias trilhas tortuosas, o urso permanece. Ele dorme o sono dos que não precisam lembrar qual versão de si mesmos apresentaram no dia anterior. A raposa termina o ciclo exausta pela manutenção de sua fachada, enquanto o urso acorda inteiro. No fim, a floresta separa a poeira da rocha. A performance da raposa é fumaça, mas a postura do urso é o que sustenta a montanha. Afinal, o tempo tem o hábito de dissipar o nevoeiro da esperteza e revelar que, enquanto a raposa apenas passava, o urso sempre esteve lá.

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