"Hoje acordei com uma trilha sonora típica para qualquer cidadão: a furadeira do vizinho. Ela aparece nos horários mais inusitados, sempre com a precisão de um relógio suíço. Às vezes às sete da manhã, às vezes quase à meia-noite, como se estivesse testando meus ouvidos ao longo do dia. Não faço ideia do que ele está construindo aqui do lado, mas desconfio que seja algo monumental, talvez uma obra que nunca verá a luz do dia, mas que insiste em marcar presença no meu despertador.
Saí de casa com a esperança de resolver tudo sem contratempos, o que já era um otimismo exagerado para um brasileiro. Fui ao supermercado apenas para comprar o básico. E, como sempre, lá estava a fila com sua personalidade própria. Ela anda, para, anda mais um pouco e trava de novo. Quando finalmente chegou a minha vez, o caixa colocou a placa de “fechado” com uma serenidade olímpica, de quem já sabe que o universo conspira nas pequenas ironias.
Do lado de fora, enfrentei o trânsito, um espetáculo diário de improviso e imprudência. Um motorista virou na minha frente sem usar seta, como se fosse dotado de telepatia coletiva. E, no mesmo instante, do outro lado da rua, um pedestre atravessava completamente imerso no celular, ignorando carros, motos, buzinas e qualquer elemento do mundo real. É quase poético, de um jeito perigoso.
O barulho no bolso alertou para o próximo capítulo da saga: o grupo da família no WhatsApp. Sessenta mensagens novas. As primeiras eram os tradicionais “bom diaaa”, sempre acompanhados de imagens luminosas, flores, pássaros e aquele entusiasmo artificial que só quem ainda está de pijama consegue transmitir. Depois vinham as promoções suspeitas, essas que mudam o adesivo, mas jamais o preço. É impressionante como os produtos conseguem encolher a cada mês, mas nunca diminui o tamanho da embalagem.
Ainda precisei enfrentar o campeonato nacional da paciência: a repartição pública. Senha, fila, guichê, carimbo, documento faltando. No final, sobrou a clássica frase: “o sistema caiu”. Parte de mim sempre acha que eles dizem isso só para manter a tradição viva. Saí de lá conhecendo melhor o prédio do que muitos funcionários.
No meio da tarde, lembrei do amigo que tinha prometido aparecer “rapidinho”. Não apareceu. Só depois de mais de uma hora de atraso. E, com a maior naturalidade, perguntou se eu estava esperando há muito tempo. O brasileiro cria paciência até onde não achava que tinha.
Antes de encerrar o dia, passei numa loja para fazer um pagamento simples. Entrei e fui recebido como se fosse membro de alguma realeza perdida, com sorrisos e elogios que ultrapassavam qualquer lógica. Depois que disse que ia só pagar uma prestação, virei invisível. Chamar alguém para resolver parecia um ato de invocação espiritual. O atendimento desapareceu como mágica.
Voltei para casa rindo sozinho, porque, no fim, o dia tinha sido apenas mais um. Absolutamente normal para nós. Aqui, o cotidiano é sempre cheio de aventuras comuns, que reunidas contam exatamente o que é ser brasileiro. Nada épico, nada cinematográfico, apenas a eterna maratona de sobreviver às filas, às burocracias, aos desatentos, aos atrasados e às correntes. Um campo minado, diria até.
Este foi mais um dia de um brasileiro, atracado entre a paciência e a ironia, no país onde tudo rende história.