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Expressão Plural

Antes da internet

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Everton Ruchel.jpeg
Por Everton Ruchel
Foto Arquivo pessoal

Existem épocas que a gente atravessa sem perceber que estão mudando. Elas simplesmente se deslocam, quase imperceptíveis, até que um dia ficam para trás e viram referência de algo que não existe mais. Quando penso nisso, percebo que cresci exatamente entre dois modos de funcionamento do mundo. Um ainda está preso ao papel, aos cabos e aos horários fixos. Outro inaugurou a lógica das telas, da velocidade e da informação instantânea. Nada disso veio de forma espetacular. Foi só uma mudança silenciosa e gradual que eu acompanhei sem ter consciência de que estava assistindo a uma transição histórica.

Antes da internet, eu vivi um conjunto de rotinas que hoje parecem de outro manual. Nasci em 1994, tenho 31 anos, e cresci num período em que quase tudo dependia de objetos específicos para acontecer. A televisão organizava a programação da casa. Não existia “ver quando quiser”. Eu assistia no horário em que aquilo passava, e perder um programa significava simplesmente não ver. As locadoras eram parte do percurso semanal, e a ideia de escolher um filme exigia caminhar por corredores, ler capas e torcer para que não estivesse alugado.

Não tinha telefone fixo em casa. Se precisava ligar para alguém, tinha que ir no orelhão da rua, um ponto estratégico na vizinhança. Não se escolhia onde conversar, era onde o fio permitia, se os créditos do cartão não acabassem antes. Para achar uma informação simples (endereço, telefone, serviço) havia a lista telefônica, pesada, desconfortável e inevitável. Quando não era suficiente, restavam as enciclopédias, que ocupavam espaço e davam ao conhecimento um peso literal.

Enquanto isso, a internet foi surgindo devagar, como um visitante que ninguém sabia ao certo por quanto tempo ficaria. Sem um computador em casa, as alternativas eram as lan houses ou a casa dos primos no fim de semana. E lá, sim, havia um telefone. O barulho do discador ainda hoje consigo reproduzir mentalmente. Depois, as páginas carregando aos pedaços, como se a imagem precisasse subir à superfície em camadas. Participar de um chat parecia uma janela para algo maior, mas com controle limitado. Porque tudo caía ou travava no meio. Baixar qualquer arquivo exigia paciência e, muitas vezes, reiniciar tudo porque alguém resolveu atender uma ligação.

Crescer junto com essa ascensão me colocou numa posição curiosa. Eu lembro do mundo que funcionava devagar, com etapas rígidas, e também lembro da rapidez tomando conta, substituindo processos. Não tive que “aprender” a usar a internet como uma novidade distante. Ela só foi entrando na rotina enquanto eu crescia, sem cerimônia, até se tornar padrão.

Quando olho para esse intervalo, não trato como algo melhor ou pior. É apenas a constatação de que passei por uma fronteira tecnológica sem perceber o que era. Vi o analógico se modificar até quase sumir, enquanto o digital se estabelecia sem a menor intenção de dividir espaço. Acompanhei os dois ritmos, os dois sistemas, as duas lógicas. E talvez por isso eu consiga reconhecer com certa clareza a diferença entre esperar por algo e receber tudo no mesmo segundo. E isso não é nenhum julgamento, e sim uma comparação direta entre duas épocas que conviveram no mesmo corredor durante um bom tempo.

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