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Expressão Plural

A decadência de quem não foi

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Por Everton Ruchel
Foto Arquivo pessoal

Dizem que Neymar está em decadência. É a palavra da moda entre analistas, comentaristas de sofá e até torcedores que, até ontem, juravam fidelidade eterna a ele. Mas antes de aceitar o veredito, vale a pergunta: pode estar em decadência alguém que sequer conseguiu estar entre os grandes?

Ser grande não é apenas brilhar por um momento. Não é ser capa de revista nem protagonista de campanhas publicitárias. É atravessar gerações, deixar uma marca no jogo e na memória, e não apenas aparecer em redes sociais. Pelé foi grande. Zico foi grande. Romário e Ronaldo Fenômeno também foram. Cada um, à sua maneira, escreveu o futebol brasileiro. Pelé transformou o esporte em arte, construiu um legado moral e levou três Copas do Mundo para casa. Zico liderou a orquestra que (infelizmente) encontrou a Itália na Copa de 1982. Romário foi o instinto puro no tetra em 1994. Ronaldo renasceu com o penta em 2002, após duas lesões nos joelhos. Já Neymar sempre ficou no meio do caminho. Talentoso demais para ser ignorado, imaturo demais para ser eterno. Um cometa luminoso, veloz e inevitavelmente passageiro.

Há uma diferença entre ídolo e símbolo. Ídolos encantam e símbolos ficam. E Neymar, embora ídolo mundial, nunca se firmou como símbolo do que o futebol brasileiro tem de melhor. É o retrato de uma geração mais interessada no aplauso imediato que na glória duradoura. Ronaldinho Gaúcho também se perdeu em meio à própria genialidade, mas teve seu auge em um Barcelona rendido aos seus pés, Bola de Ouro e líder no título da Champions League em 2006. Ele tocou o topo. Neymar, não. Apesar do título europeu no mesmo Barcelona em 2015, estava à sombra de Messi. Saiu para ser protagonista único no PSG, mas o máximo que conseguiu na França foi ser vice na final pandêmica em 2020.

O contraste aumenta em comparação com outros atletas. Zidane caiu em desgraça com uma cabeçada na final da Copa de 2006, mas sua grandeza jamais foi questionada. Maradona teve inúmeros defeitos e polêmicas ao longo da vida, mas ganhou praticamente sozinho a Copa de 1986 e virou divindade na Argentina. Messi e Cristiano Ronaldo desafiaram o tempo e construíram legados que não cabem em números. Neymar, por sua vez, parece ter vivido uma biografia feita de lampejos, sempre entre o que poderia ter sido e o que ainda promete ser.

Em 2014, esperava-se o herói na Copa do Mundo em casa e veio a lesão nas quartas de final, um prefácio do 7 a 1 para a Alemanha na semifinal. Em 2018, esperava-se a maturidade e vieram as quedas teatrais. Em 2022, esperava-se a redenção e veio o gol bonito contra a Croácia, mas logo em seguida a eliminação. A cada ciclo, o mesmo roteiro de frustrações. A verdade é que a decadência pressupõe um protagonismo, e talvez Neymar nunca tenha chegado lá. Seus números impressionam, sua técnica é indiscutível, mas a grandeza parece lhe escapar.

O futebol moderno é cruel. Exige marketing, imagem, engajamento, mas também caráter esportivo, aquele fogo que fazia Garrincha jogar com as pernas tortas e Sócrates transformar o futebol em pensamento. Neymar nasceu com o dom, mas não com o peso da missão. Acabou preso entre memes, lesões e promessas. E ainda pode ir para a Série B com o Santos, clube que o revelou.

Por isso, quando dizem que “Neymar está em decadência”, talvez devêssemos reformular. A decadência é o fim para os gigantes, o crepúsculo de quem um dia foi sol. Neymar, com toda a sua arte, talvez tenha sido apenas uma estrela cadente. Mas quem nunca chegou ao topo não pode cair dele. Afinal, pode estar em decadência alguém que sequer conseguiu estar entre os grandes?

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