Após a morte do lendário Ace Frehley, comecei a desenvolver um hiperfoco no KISS, banda que por muito tempo ignorei. Suas maquiagens, shows e personalidades extravagantes, que definiram o conceito de rockstar e de boy band, iam contra a ideologia punk com a qual me identifiquei na adolescência. Enfim, pouca gente fala isso, mas eu estava errado.
Agora, imerso na discografia da banda e conhecendo sua história, é até estranho como aqueles super-heróis no palco vieram de famílias muito pobres e eram cheios de problemas e traumas pessoais, incluindo a mãe do Gene Simmons, que era uma sobrevivente do Holocausto, e o Paul Stanley, que nasceu com microtia e atresia — condição que o deixou sem uma orelha externa, surdo de um lado e sofrendo bullying durante toda sua infância e adolescência. Era mais fácil odiá-los quando eles eram os inabaláveis reis do rock que vivem no luxo, seres anos-luz distantes de mim, que não sabem das realidades do mundo e cantam só “futilidades”... E como é fácil nos separarmos dos outros e os vermos como uma espécie diferente de ser, não humanos como nós; eles são outra coisa. Assim, podemos odiá-los livremente sem nunca nos questionarmos ou pensarmos muito sobre isso. O que nada é além do mais puro preconceito e ignorância. No fundo, somos todos seres humanos que sofrem, amam, querem ser felizes, querem orgulhar quem admiram, querem ser aceitos...
“Everybody's got a reason to live, baby
Everybody's got a dream and a hunger inside.”
Agora vamos chegando à parte que deu a maior virada de chave para minha percepção sobre essa banda e seus integrantes, e que me trouxe toda essa reflexão: a música “Reason To Live”, oitava faixa do álbum “Crazy Nights”, de 1987. A tradução do refrão é: “Todos nós temos uma razão para viver. Todos temos um sonho e a vontade de vencer dentro de nós.” O que, na minha visão, é uma maneira belíssima de encarar todos os nossos irmãos e irmãs neste planeta azul. Querem tanto nos dividir e nos armar uns contra os outros, e somos todos, no fundo, sonhadores — no bom sentido do termo. Pessoas que querem vencer e mudar algo.
Depois dessa música, assisti aos documentários sobre a banda e vi uma vontade pura e bela em tudo que fazem. Paul criou o conceito para o que viria a ser o grupo assistindo a shows e percebendo que as bandas não se importavam com o público; ele queria formar uma banda em que o público seria tudo. Independentemente do que estivesse passando em sua vida, ao subir as escadas do palco, tudo ficava lá embaixo, pois aquela multidão dependia de você para esquecer dos seus problemas e ser feliz, nem que fosse por duas horas. O mundo é um lugar horrível, mas aqui é rock a noite toda e festa o dia inteiro. Aqui, os sonhos são reais e a felicidade existe. O superespetáculo não existia porque a teatralidade era mais importante que a música; as letras não eram felizes porque eles eram alienados, mas sim porque tudo isso é uma válvula de escape saudável dos problemas — é um mundo mágico para fugir. Quem dera todos os artistas fossem assim. Eles nasceram para performar. E se vocês querem o melhor, vocês terão o melhor: A BANDA MAIS QUENTE DO MUNDO.