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Expressão Plural

Homens e mulheres que sabem coisas

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

A expressão "homens que sabem coisas" foi cunhada por Flávio Loureiro Chaves em um texto sobre a morte de Mario Quintana, em 1994. Ela dizia respeito a uma geração de intelectuais sem “formação formal” que lia (bibliotecas inteiras), pensava e escrevia (páginas contadas aos milhares) porque isso lhes era vital (como era e é vital para nós que o fizessem, que o tenham feito), e não porque estivessem envolvidos em algum tipo de carreira ou instituição acadêmica que mais ou menos os forçassem a fazer aquilo, ou para serem vistos e tidos como produtivos por algum órgão estatal ou privado de fomento à pesquisa, ou por seus pares. E não, também, porque estivessem engajados em alguma espécie de projeto político. A vida acadêmica e a vida política até podiam eventualmente estar presentes de diversos modos em suas trajetórias, mas o impulso que os movia era claramente anterior, interior – e livre em relação a essas estruturas. Tratava-se de uma militância cultural, por assim dizer. O mundo pedia para ser compreendido e eles/as arrostavam o mundo. Escreviam “Os subterrâneos da liberdade”, ou “O segundo sexo”, ou “O tempo e o vento”. Não podiam deixar de fazê-lo.

É claro que “formação formal” é importante, e que não há nada de errado em se qualificar uma tese, ou em escrevê-la. E nem é desejável, ou possível, que a época dos “homens que sabem coisas” retorne. E também não é o caso de se afirmar que aqueles/as intelectuais produziram a sua obra em um Olimpo abstrato, sem qualquer condicionamento – é claro que havia condicionamentos, às vezes até o de literalmente ganhar o pão de cada dia; ou o da própria ambição, sempre um motor forte. E a universidade, por sua vez, tem de existir, sem qualquer espaço para dúvida, assim como devem existir, eu suponho, critérios que meçam a produção acadêmica. E, de resto, tem muita gente legal hoje, tanto quanto no passado, qualquer passado. Houve, de qualquer modo, de umas quantas décadas para cá, uma espécie de captura da inteligência, do conhecimento e de sua produção, e marcadamente do conhecimento ligado à literatura e às ciências humanas, pelas estruturas acadêmicas, sobretudo – e isso, hipoteticamente, explica em parte o desaparecimento dos dinossáuricos “homens que sabem coisas”.

Uma outra característica dos homens e mulheres que "sabiam coisas" era a capacidade rara de unir conhecimento e sabedoria – arte esquecida e cuja necessidade hoje não é sequer reconhecida: terá de ser recuperada, se for, se tivermos a manha de nos nutrirmos das energias utópicas e dos inúmeros “bem viver” do Sul do mundo, das paideias ameríndia, africana e oriental. E uma terceira característica, ainda, a universalidade, a horizontalidade de seu conhecimento, sem desprezar a verticalidade da "especialização", num equilíbrio que impedia o ensimesmamento em cacos de hiperespecialização de que talvez sejamos - e o próprio conhecimento - vítimas hoje. Eram homens e mulheres, para usar a expressão de Edgar Morin (ele mesmo um dos últimos sábios da tribo), de "cabeça bem feita".

Agora: como versejou Caetano Veloso, não me queixo. Não há um “antigamente” que “era melhor”, definitivamente não há. Mas há descontinuidades, rupturas, diferenças, e, a linhas tantas de nossa própria caminhada, a gente para coça a cabeça e diz: “bah!, reparem nisso aqui...”. E aquilo passa a compor nosso cosmo percepção. É isso. E seguimos adiante, pelo século XXI adentro e aos tropeços, irremediavelmente tornados pelas redes sociais camelôs de nós mesmos, nós, homens e mulheres que twittam coisas.

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