“Time is the school in wich we learn/ Time is the fire in wich we burn” (“O tempo é a escola em que aprendemos/ O tempo é o fogo em que queimamos”), escreveu o poeta Delmore Schwartz. Legal, hein? E um tanto perturbador, porque o verso traz questões: aprendemos o quê? Qual é significado de nos queimarmos? Um jeito interessante de abordar tais problemas é pensá-los com o Oriente: as tradições religiosas e filosóficas daquela metade do mundo enfatizam a importância crucial de nos situarmos inteiramente no presente para viver bem (o que é “viver bem” é uma outra questão). Essa – com o perdão da redundância – presença no presente seria tudo o que há: tu respiras no presente.
O escritor e filósofo sino-americano Deng-Ming Dao entende, usando a metáfora universal do tempo como um rio (lembremos Heráclito, também), que não é útil seccionar o tempo como seccionamos um rio, uma corrente ininterrupta, em partes separadas – a fonte, o canal, a foz. Aqueles que vivem nostálgicos dos “velhos tempos” podem estar cegos para a realidade presente. Os que vivem esperando que “amanhã seja um novo dia” podem estar impondo renúncias demasiadas à experiência presente. E os que vivem apenas o presente, podem estar sendo negligentes, manifestando pouca consideração pela história (de vida e social) ou pelas consequências. É uma encrenca danada, como se vê.
A chave (não) mágica estaria em ler e viver o presente como um elemento de equilíbrio e de articulação dos tempos: mantém-se sua posição pontual, nodal, de “comando”, enche-se o presente de experiências relevantes, mas se reconhece e se compreende o passado (que nos afeta de inúmeras formas, Freud que o diga), e se guardam forças para construir o futuro. Quer dizer, o presente tem as rédeas do tempo: numa mão o passado, na outra o futuro. Fica preservada a ideia de uma perspectiva que considera a totalidade do tempo, mas o presente deixa claro quem é que verifica para onde o vento está soprando. Admito: continua sendo uma encrenca danada. Mas não se trata mais de “anular” ingenuamente o passado e o futuro como meras ilusões.
Deixemos de lado, por ora, o passado e sua bagagem cristã-ocidental de culpa, e apanhemos o futuro. A relação entre presente e futuro é extremamente orgânica nas tradições do Oriente: tanto no I Ching como no Tao Te King – na ideia de wu-wei, “não-ação”, ou ação tão perfeita que é percebida como inação –, como no Bahagavad Gita – na ideia de ação livre de expectativas de recompensa –, como no Dhammapada. A ação “correta” corta as correias de transmissão no tempo do sofrimento e produz os seus efeitos no mundo sem deixar marcas, pegadas, traços irresolvidos, pontas, arestas, pólipos. Ou minimiza tudo isso. Tu ages inteiramente. Feito isso, o resultado (o futuro) que vier é o resultado (o futuro) que vier: bom ou mau, tu fizeste tudo o que poderia ser feito.
De qualquer modo, é no agora – no teu pensamento, na tua palavra, na tua ação – que o esboço do futuro está sendo desenhado. Em um continuum. O tempo é a escola em que aprendemos a lidar com a encrenca, a deixá-la para trás. Pense em uma velha mulher chinesa praticando Tai Chi Chuan em um parque numa manhã de inverno. Tendo refinado aqueles movimentos – “o corpo se move, a mente não” - por nove décadas, ela é indistinguível das árvores, da neve, dos pássaros e esquilos, do velho que lê um jornal em um banco ali perto, das nuvens no céu. Quase não deixa marcas no chão. O tempo é o fogo em que queimamos o que, em nós, era esforço desajeitado; o que, em nós, era ignorância, eram amarras; o que, em nós, sobrava.