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Expressão Plural

Saia da curva

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Por Everton Ruchel
Foto Arquivo pessoal

Há uma sensação curiosa que acompanha quem se aproxima do conhecimento: quanto mais se aprende, mais se percebe o tamanho do desconhecido. É como caminhar numa estrada que, em vez de encurtar, se alonga a cada passo. Já quem mal deu os primeiros movimentos costuma acreditar que já chegou ao destino. Talvez por isso tantos falem com convicção sobre assuntos que mal arranharam, enquanto os que mergulham fundo se tornam, paradoxalmente, mais cautelosos em suas palavras.

Essa ironia aparece em todo lugar: no bar com os amigos, nas reuniões de trabalho, nos debates virtuais que fervem nas redes sociais. Quem não se arriscou a atravessar a ponte do estudo real costuma falar alto, quase sempre sem titubear. Já quem percorreu um caminho mais longo aprendeu a medir o peso de cada palavra, consciente de que nenhuma verdade é tão sólida quanto parecia à primeira vista. O eco da superfície costuma soar mais alto do que o silêncio das profundezas.

É uma estrada com muitas curvas, fáceis de se perder. Nesse cenário, o importante não é brilhar pela quantidade de respostas decoradas. E sim aprender a desconfiar das próprias certezas. Reconhecer que a ignorância não é um obstáculo temporário que será vencido em definitivo, mas uma companheira discreta, quase muda. Cada livro lido revela outros cem que permanecem fechados. Cada resposta conquistada abre caminho para perguntas ainda mais complexas. O mapa do saber nunca estará completo, e é justamente isso que torna a viagem formidável.

No entanto, estamos em um tempo em que a dúvida perdeu prestígio. As certezas fáceis, mesmo frágeis, atraem atenção. Quem afirma “não sei” é visto como fraco, quem bate no peito e garante “sei de tudo” arranca aplausos. É curioso como o palco da vida pública se alimenta mais do espetáculo da convicção do que do esforço da reflexão. Poucos lembram que admitir o que falta é, muitas vezes, o mais honesto e o mais corajoso a se fazer.

Talvez a grande saída dessas curvas esteja justamente em não confundir volume com profundidade, nem segurança com sabedoria. É preciso desconfiar da pressa em julgar, da ânsia em se posicionar, da vaidade que transforma meia dúzia de informações em dogmas inquestionáveis. A vida não pede donos da verdade, e sim aprendizes atentos, dispostos a rever o que sabem e a recomeçar sempre que necessário.

Quem consegue sair das curvas entende que a sabedoria não se mede em respostas prontas, mas na disposição de continuar perguntando. Não há fraqueza em questionar o que parece evidente, reler o que parece esgotado, revisitar convicções que parecem inabaláveis. Esse gesto revela grandeza. Porque só cresce quem aceita que ainda não chegou.

No fim das contas, sair da curva talvez seja apenas isso: ter a coragem de andar por caminhos menos óbvios, não para provar que se sabe mais, mas para admitir que nunca se saberá o bastante. A verdadeira força do conhecimento está no silêncio da humildade, e não no grito das certezas fáceis.

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